domingo, 25 de maio de 2014

Time mineiro de futebol tem raízes inglesas

A relação entre ingleses e mineiros no futebol vai além do histórico calendário da Copa do Mundo de 1950. A exploração mineradora pelos ingleses da região de Nova Lima, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, possibilitou o surgimento de um time de futebol, o Villa Nova Atlético Clube, formado por trabalhadores das minas.
Sessenta e quatro anos depois, a Seleção da Inglaterra entrará em campo, no Mineirão, para o confronto com a Costa Rica pela Copa do Mundo, no dia 24 de junho. Os britânicos retornam à cidade onde realizaram um dos jogos mais comentados da história do referido Mundial. O time inglês foi derrotado pelos Estados Unidos por 1 a 0, resultado considerado talvez a maior zebra da Copa do Mundo, no estádio Independência.
A herança dos ingleses em campo teve seu marco em 28 de junho de 1908, quando um grupo de operários da Saint John Del Rey Mining Company Limited fundou o Villa, o segundo clube mais antigo do Estado em atividade, superado pelo Atlético, fundado em 25 de março do mesmo ano. Na ocasião, Nova Lima ainda se chamava Villa Nova de Lima. Daí a origem do nome do time. Para simbolizar o clube, nascido sob o signo anglo-saxão, foram escolhidas as cores vermelha e branca, as mesmas que compõem a bandeira da Inglaterra. Como mascote, o Leão, símbolo da monarquia britânica.
A Saint John Del Rey Mining Company Limited era responsável pelo emprego dos atletas do Villa em sua mina. A empresa mantinha uma norma que foi fundamental para a estruturação do clube: todo funcionário da empresa contribuía de modo compulsório para a agremiação alvirrubra e tornava-se sócio. Isso gerava uma fonte segura de receita mensal e garantia a manutenção de um time forte e competitivo. Em contrapartida, os contribuintes podiam entrar gratuitamente no Estádio Castor Cifuentes, hábito que era comum também entre outros clubes na época.
O jornalista Wagner Augusto Álvares de Freitas é torcedor e historiador do Villa Nova. Ele é autor de dois livros sobre o Leão do Bonfim: “Villa Nova: 100 anos de Glória em Vermelho e Branco” (2008) e “Almanaque do Leão do Bonfim” (2011).
Ele conta que a influência inglesa nos anos iniciais do time era bastante forte. “Não se tratava apenas de um estímulo corporativo com vistas a proporcionar uma boa opção de lazer aos trabalhadores da mineração, para que se mantivessem motivados no ambiente insalubre das lavras. A Saint John Del Rey Mining Company Limited passou a administrar o clube alguns anos após a fundação, como se o mesmo fosse um apêndice da empresa”, comenta. “Essa dedicação ao Villa Nova fez com que a agremiação fosse a pioneira em Minas Gerais na adoção do profissionalismo. No entanto, a partir da década de 1920, os ingleses foram se afastando dos cargos diretivos, que passaram a ser monopólio dos brasileiros. Atualmente, não há nenhum sócio inglês nos quadros da agremiação” afirma Freitas.
Apesar da ausência de representantes da Inglaterra no clube nos dias de hoje, os britânicos deixaram seu legado para o Villa. “Uma das heranças deixadas pelos ingleses é o terreno no bairro Bonfim, onde hoje está construído o Estádio Municipal Castor Cifuentes, que pertencia à mineradora na época da fundação do clube”.
Na Copa de 1950, a Seleção da Inglaterra hospedou-se em Nova Lima. No entanto, não há registros de nenhum confronto entre villa-novenses e ingleses na preparação para o evento. Na oportunidade, o presidente da Fifa na época, o francês Jules Rimet, foi recepcionado pelo dirigente do clube, Natalício Carsalade, que era fluente em francês. Em 2008, o Villa Nova homenageou Roger Arthur Gough, cônsul britânico honorário em Belo Horizonte na época.
O jornalista Ivan Drummond também é conhecedor da história do Leão. Sobrinho-neto de Sérgio, zagueiro tetracampeão mineiro pelo time de Nova Lima em 1932/33/34/35, ele herdou do pai o cargo de conselheiro do clube. Drummond chegou a jogar nas categorias de base do Leão. “Joguei até o juvenil e fui emprestado ao Atlético para disputar a Taça São Paulo, na década de 70”, conta.
Entre os principais fatos da história alvirrubra, o jornalista destaca o título do Campeonato Mineiro de 1951, quando o Villa Nova bateu o Atlético dentro do Independência, com gol de Vaduca. “Tivemos também o título do 1º Campeonato Brasileiro da segunda divisão, em 1971, que deu ao Leão a vaga na divisão principal do ano seguinte”, relembra.
Ele cita ainda grandes craques que vestiram a camisa do Villa. “Alguns deles chegaram à Seleção Brasileira. Perácio e Zezé Procópio fizeram parte das conquistas estaduais de 1932 a 1935, representaram o Brasil na Copa do Mundo de 1938”. Escurinho, que atuou na década de 50, e o zagueiro Luisinho, revelado pelo time villa-novense no final da década de 70, também tiveram passagens pelo escrete canarinho.
Para o futuro, Ivan Drummond tem expectativas otimistas. “O clube está passando por uma reformulação em suas categorias de base, o que irá facilitar o surgimento de bons jogadores e a formação de times com potencial para voltar a conquistar títulos para o clube”, conclui.
A mesma opinião tem o estudante Lucas Quintiliano, 21 anos, torcedor do Leão. “Espero que o Villa passe por mudanças e volte a aparecer bem no Campeonato Mineiro. Com uma boa administração e uma equipe competitiva, o apoio da torcida, que é a marca do time, será incondicional. Quando o Villa vai bem, a cidade toda se empolga e fica em festa”.
Mesmo jovem, frente à história centenária do Clube, Quintiliano sente falta da herança inglesa no futebol do time alvirrubro. “O futebol inglês é sinônimo de muita tradição e técnica. Gostaria que estas características fossem mais presentes no futebol do Villa”, reclama sobre o time, sexto colocado no estadual deste ano.
Lucas tornou-se villa-novense ainda pequeno. “Sempre morei em Nova Lima e, como quase todo morador da cidade, o Villa e seus jogos eram tradição. Meus pais me levavam aos jogos desde criança e, na adolescência, fiz parte de uma das torcidas organizadas”, conta.
O estudante defende que o zagueiro Luisinho é o melhor jogador da história do Leão do Bonfim, apesar de não tê-lo visto jogar. “Dentre os jogadores que vi em campo com a camisa do Leão, destaco o Márcio Guerreiro, que para mim foi o melhor, o Tucho e o Tchô também”, acrescenta.

Lazer. A moda mais recente na vida noturna e na gastronomia da capital é a dos pubs - os bares fechados, perfeitos para fugir do frio, e tão típicos nas Ilhas Britânicas. Desde 2010, pelo menos nove casas do gênero foram abertas na região Centro-Sul de Belo Horizonte.
Apaixonado por futebol, o londrino Anthony, torcedor do Queens Park Rangers e do Atlético, destaca a semelhança dos pubs, mas prefere enaltecer os botecos mineiros. “Tem boteco perto da minha casa (região da Pampulha) que é muito pequeno, mas lá vão coronéis, arquitetos, empresários, professores, enfim, todo tipo de pessoa. O bar nivela todo mundo, ninguém é melhor que ninguém e isso é muito legal", comentou. Para o britânico, a Serra do Cipó, destino turístico de Minas Gerais, também lembra a Inglaterra. "A região me lembra a parte lesta do meu país de origem, porém aqui é tudo muito maior. No ano passado viajei para Inglaterra e visitei a maior cachoeira de lá, que tem apenas 30 metros”, finalizou.

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